Smile! — Volume 3: o horror ultrapassa todos os limites

 

Mitei Hattori eleva o terror psicológico a outro patamar e entrega, até agora, minha melhor leitura de 2026.

Absurdo Fantástico | Resenha — Volume 3 | Sem spoilers

Existem obras que começam muito bem, mas acabam perdendo força conforme a história avança. Felizmente, Smile!, de Mitei Hattori, parece seguir o caminho contrário.

Depois de um primeiro volume sombrio e perturbador e de um segundo que me surpreendeu pelas mudanças de direção, chegamos ao terceiro livro. E que livro!

Após tantas voltas e reviravoltas, a narrativa recupera o clima opressivo do início da série, mas agora vai muito além.

Confesso que não esperava encontrar algo tão pesado.

Não pretendo revelar os acontecimentos deste volume, porque acredito que boa parte de sua força está justamente no impacto das descobertas. Mas posso afirmar uma coisa: você precisa ler esta história.

Até este momento, Smile! é a melhor história que li em 2026.

E olhe que eu nem sou fã de mangás!

O retorno ao terror mais sombrio

No primeiro volume, Mitei Hattori construiu uma atmosfera de inquietação em torno de uma organização religiosa aparentemente dedicada à felicidade.

No segundo, aprofundou seus personagens e os mecanismos psicológicos utilizados pela seita para conquistar seus seguidores. Essa mudança de abordagem chegou a me causar algum estranhamento, mas agora percebo melhor sua importância.

O terceiro volume reúne esses elementos e leva a narrativa a um nível de intensidade impressionante.

A brutalidade da seita, a manipulação psicológica e a progressiva distorção da realidade atingem níveis extremos.

O que antes parecia apenas uma organização religiosa ameaçadora revela dimensões ainda mais perturbadoras.

E o mais assustador continua sendo a possibilidade de reconhecer, por trás daquela ficção, comportamentos e mecanismos que não estão tão distantes do nosso mundo.

Quando a realidade começa a perder o sentido

Um dos aspectos mais interessantes deste volume é a maneira como Hattori trabalha a percepção da realidade.

A manipulação exercida pela seita não se limita às crenças de seus integrantes. Ela parece alcançar a própria maneira como os personagens compreendem o mundo ao seu redor.

Aquilo que deveria ser evidente deixa de ser. O absurdo começa a adquirir uma aparência de normalidade.

Esse deslocamento da realidade é particularmente perturbador porque representa uma das formas mais profundas de controle psicológico: fazer com que uma pessoa passe a desconfiar de suas próprias percepções.

Como mencionei nas resenhas anteriores, meu interesse pela obra está relacionado também aos estudos que realizei, quando jovem, sobre teologia e seitas apocalípticas.

O terceiro volume reforçou ainda mais esse interesse.

Hattori demonstra como uma estrutura de poder baseada na fé, no pertencimento e na promessa de felicidade pode transformar-se em algo terrivelmente opressivo.

E não poupa o leitor das consequências desse processo.

Uma arte que não oferece conforto

Se nos volumes anteriores eu já havia destacado a beleza e o realismo dos desenhos, aqui a arte de Mitei Hattori assume uma importância ainda maior.

Seus traços continuam belíssimos, mas agora são utilizados para construir situações de enorme desconforto.

O autor não suaviza a atmosfera da narrativa.

As expressões faciais, os enquadramentos e a composição das páginas intensificam a sensação de que estamos diante de um universo no qual a normalidade foi completamente subvertida.

É interessante observar como uma arte tão bela pode transmitir tamanha inquietação.

Hattori não precisa recorrer aos exageros expressivos que costumam aparecer em muitos mangás. Seu desenho naturalista, que tanto me agradou desde o primeiro volume, torna tudo ainda mais convincente.

Afinal, o horror se torna especialmente perturbador quando parece real.

Um final que nos leva de volta ao começo

E quando imaginamos que já fomos suficientemente surpreendidos, Hattori reserva mais uma provocação.

A última página deste terceiro volume estabelece uma ligação curiosíssima com o início da trama.

Não vou explicar como isso acontece.

Seria estragar uma das melhores surpresas da leitura.

Mas essa escolha narrativa me deixou extremamente curioso para descobrir o que virá a seguir.

Depois de três volumes, começo a perceber que a história talvez seja ainda mais elaborada do que parecia inicialmente.

Há algo especialmente interessante em uma narrativa que, depois de nos conduzir por caminhos inesperados, consegue fazer com que olhemos novamente para seu ponto de partida.

É o tipo de recurso que me faz querer retornar aos primeiros capítulos e observar detalhes que talvez tenham passado despercebidos.

A grande aposta da Comix Zone

Também preciso voltar a elogiar o trabalho da Comix Zone.

A edição brasileira continua muito caprichada, com uma apresentação física que valoriza a excelente arte de Hattori.

A qualidade editorial merece reconhecimento, especialmente em uma obra que depende tanto de sua linguagem visual para construir a atmosfera de terror.

Em um video no youtube, Alexandre, da Comix Zone, comentou que Smile! era a maior aposta da editora.

Na ocasião, fiquei curioso para compreender o motivo de tanto entusiasmo.

Agora, depois de três volumes, acredito que começo a entender.

E preciso concordar com ele.

A Comix Zone apostou em uma obra de personalidade forte, visualmente impressionante e com uma narrativa que não tem receio de incomodar seus leitores.

Pelo menos até aqui, considero uma aposta muito bem-sucedida.

Considerações finais: a melhor leitura do ano?

Leio muitos quadrinhos e livros ao longo do ano, de diferentes gêneros, países e tradições narrativas.

Tenho uma preferência bastante clara pelos quadrinhos europeus e pelas obras de ficção científica e fantasia. Os mangás nunca estiveram entre minhas prioridades.

Talvez por isso minha experiência com Smile! tenha sido ainda mais surpreendente.

O primeiro volume despertou minha curiosidade. O segundo aprofundou a complexidade da história, embora tenha provocado algum estranhamento. O terceiro simplesmente me conquistou.

Mitei Hattori construiu uma narrativa de terror psicológico que consegue ser brutal, inteligente e profundamente desconfortável, sem depender de criaturas sobrenaturais para provocar medo.

E ainda encontrou uma maneira de terminar este volume fazendo com que eu queira imediatamente o próximo.

Até agora, é a melhor história que li em 2026.

Não sei se os próximos volumes conseguirão manter esse nível. Espero sinceramente que sim.

Mas, independentemente do que venha pela frente, uma coisa já posso afirmar: Smile! conquistou um lugar de destaque entre minhas leituras do ano.

E pensar que tudo começou com um simples sorriso.


Ficha técnica

  • Obra: Smile! — Volume 3

  • Autor e arte: Mitei Hattori

  • Origem: Japão

  • Gênero: Terror psicológico, suspense, seinen

  • Editora brasileira: Comix Zone

  • Páginas: 408

  • Publicação brasileira: 2026

  • Análise: Resenha crítica do terceiro volume, sem spoilers

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fundação, de Isaac Asimov: quando a matemática prevê o fim de um império

Thorgal: muito além dos vikings — quando a fantasia encontra a ficção científica

Siegfried, de Alex Alice: quando a mitologia nórdica ganha vida